Na última sexta-feira (01), cerca de 150 policiais militares cumpriram um mandado de reintegração de posse na comunidade de Alecrim, interior de Pinhão, Sul do Paraná. Famílias que viviam no local há mais de 20 anos, tiveram que sair de suas casas, que foram demolidas, assim como o posto de saúde e até mesmo a igreja.

A reintegração de posse foi solicitada pelas indústrias Zattar, que afirmam ter documentos que comprovam a propriedade da área. O diretor-presidente da empresa, Miguel Zattar Filho, afirmou que esta reintegração de posse é um processo que dura 20 anos. Salienta que houve uma tentativa de negociação com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), mas em nenhum momento o órgão aceitou a solução que a empresa ofereceu. Relata que em 2006, a empresa realizou a oferta de uma área de 10 mil alqueires para que o Incra adquirisse e alocasse as famílias, mas não houve interesse do órgão.

Na semana passada, uma audiência pública foi realizada em Pinhão para tratar do assunto. Segundo o secretário de Assuntos Fundiários do Paraná, Hamilton Serighelli, haviam tratativas de negociação entre o proprietário e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) até o ano passado, porém com a mudança no governo federal, a situação estagnou.

Ao serem despejados, a maioria dos moradores teve que deixar seus pertences em casas de parentes e amigos. As criações de animais ficaram sem destino. As roças foram plantadas, mas não serão colhidas.

Duas imagens da ação são emblemáticas: a de um menino chorando ao ver a casa onde nasceu e viveu toda sua infância sendo destruída e a da igreja da comunidade sendo demolida.

A Cáritas Brasileira – Regional Paraná publicou Nota de Repúdio à ação. No documento, a entidade remonta a história da luta pela terra no Estado, sobretudo a questão agrária em Pinhão, onde, antes da chegada da madeireira Zattar, em 1940, viviam cerca de 2 mil famílias de posseiros. “A ocupação da área pela empresa ocorreu em detrimento de famílias de pequenos agricultores que já habitavam as terras desde o Brasil imperial. Elas foram expulsas e assim a indústria constituiu um dos maiores complexos latifundiários do Paraná”, aponta a nota.

O documento finaliza, reafirmando que “a Cáritas repudia veementemente a violência utilizada hoje contra as famílias em Pinhão, sob as ordens do Supremo Tribunal Federal e executado pelo governo do Paraná, assim como, a falta de uma política para a democratização das terras. Ao tempo que exige do INCRA e do Governador do Estado do Paraná que encontre outra área na região para minimizar o sofrimento e o constrangimento que o Estado impôs a essas famílias”.

O arcebispo de Maringá, Dom Anuar Battisti, em pronunciamento através de redes sociais, manifesta solidariedade às famílias. “Lamentamos este gesto tão sério, tão profundo, de tirar a dignidade das famílias. […] Nós clamamos pelas famílias. Que Deus os fortaleça. […] E pedimos aos homens da Justiça, aos juízes, ao Supremo Tribunal Federal, que busquem o caminho da Justiça”, declarou.

Dom Anuar, arcebispo de Maringá, noroeste do Paraná, fez essa nota pública em audiovisual em repúdio ao violento despejo ocorrido em Pinhão, no centro sul do Estado.

Posted by Diário Reservense on Tuesday, December 5, 2017