Embora tenha formalmente quase 100% de presença nas sessões realizadas no plenário da Câmara dos Deputados, o deputado federal Hermes Parcianello (PMDB-PR) não participa efetivamente dos debates da Casa. Também não costuma ir às reuniões da Comissão de Viação e Transportes, da qual é titular. Ao menos desde o início da atual legislatura, Hermes “Frangão” Parcianello, nome que adota nas urnas, elaborou uma rotina própria: a de registrar presença no ponto eletrônico da Câmara dos Deputados e ir embora.

Às vezes, ele retorna para votar. Um levantamento feito pela Gazeta do Povo com base em dados do Legislativo mostra que, ao longo de 2017, das 233 votações realizadas no plenário, Frangão registrou sua posição em 56 – foram 27 votos “sim”; 27 votos “não”; uma abstenção; e uma obstrução. Mas, mesmo quando vota, é discreto. Nos três primeiros anos da atual legislatura, de 2015 a 2017, Frangão usou o microfone do plenário em apenas sete situações.

Frangão é o mais presente e o que menos fala

“Senhor presidente, sinto cheiro das mesmas aves de rapina de 54, que levaram Getúlio ao suicídio, mas a força do voto de Cascavel, do Oeste do Paraná, do Noroeste, dos Campos Gerais, dos meus eleitores, dos mais de 150 mil eleitores, do povo do Paraná e do Brasil, meu voto é sim”, discursou ele, em 17 de abril de 2016, ajudando a abrir o processo de impeachment contra a então presidente Dilma Rousseff (PT).

“O Frangão é um mito. Tem um deputado do Paraná, do mandato passado, que saiu da Casa, depois de quatro anos, sem conhecer ele”, relata um colega, que prefere o anonimato a falar publicamente de um “companheiro de bancada”. Mas, o próprio deputado do PMDB do Paraná não vê a situação como algo ruim.

 Em entrevista à Gazeta do Povo, Frangão garante que escolheu ficar longe do plenário da Câmara dos Deputados – e também das 25 comissões permanentes da Casa, onde os parlamentares se debruçam sobre temas específicos, mesmo quando não ocupam cadeiras de titulares – para “se focar em obter recursos da União para levar aos municípios”. 

“Eu fui muito plenarista nos meus dois primeiros mandatos, muito ativo, levantava cedo para me inscrever para falar. Mas, por causa da minha independência em relação ao meu partido, minha postura independente nas votações, você passa a não ser designado para uma presidência de comissão, para uma vice-presidência de comissão, para uma relatoria importante, e isso foi me impulsionado a cuidar cada vez mais das minhas bases, dos interesses locais”, explica Frangão.

Exercendo seu sexto mandato na Casa, Frangão diz acreditar que sua postura não traz prejuízos eleitorais. “Minha votação só tem se ampliado. Porque os eleitores querem ver resultados concretos. Não adianta ficar naquele tiroteio do plenário. Naquelas discussões intermináveis. Eu, deliberadamente, não participo. Eu tenho me dedicado a brigar por recursos. Tenho articulado junto aos ministérios, apresentando bons projetos aos técnicos, fazendo marcação cerrada. Eu tenho uma atuação forte, por exemplo, em um hospital filantrópico do câncer em Cascavel. Meu mandato marcadamente é em defesa da população, principalmente na área da saúde. Minha força eleitoral está nas minhas bases”, diz ele.

Eleições

Pré-candidato à reeleição em outubro próximo, Frangão admite ainda não saber como será sua primeira campanha eleitoral sem financiamento privado, e, portanto, dependente principalmente de recursos do Fundo Partidário e do “fundão eleitoral”, ambos administrados pelos partidos políticos.

“A campanha eleitoral infelizmente custa. Eu preciso botar um carro de som na rua, um cabo eleitoral e fazer propaganda. Mas acredito que a distribuição do dinheiro [entre os candidatos] terá uma uniformidade. Não pode ter um tratamento diferenciado do partido por causa da minha independência. Sinceramente, ainda não sei como será o critério de distribuição, mas vou brigar para ser igualitário, vou buscar meu espaço”, afirma ele.