O escritor Josué Montello nos ensina que o dever número um de um crítico é compreender. Com base nesta lição devidamente aprendida com o mestre, sempre procuro deixar claro para meus alunos que eles não têm a menor obrigação de concordar com uma opinião quando essa lhes é apresentada, pouco importa quem seja o seu autor; entretanto, eles têm o dever moral de, com sinceridade, esforçar-se para realmente compreendê-la.
Lição similar é-nos ensinada através da obra do filósofo Mário Ferreira dos Santos, que procurava, nas palavras dele, identificar em todas as filosofias de que tomava conhecimento as suas ?positividades? e, é claro, as suas "negatividades", através de uma análise ?decadialética?. Procedendo por este riscado, ele conseguia ter uma visão ampla e profunda a respeito das ideias e opiniões de que discordava e, de quebra, acabava aprofundando e ampliando os fundamentos de suas próprias interpretações e pontos de vista.
Um exemplo mui ilustrativo de seu modus operandi foi o debate que ocorreu entre ele e o historiador Caio Prado Júnior, em um evento promovido por um grupo anarquista em São Paulo, na primeira metade dos anos 60 do século passado. Após o grande historiador marxista ter apresentado sua tese, Ferreira dos Santos tomou a palavra e, antes de expor a sua, pediu licença para fazer algumas correções à tese apresentada pelo seu antagonista que, segundo ele, estava repleta de equívocos (Bah!). Bem, após uma longa exposição - que levou os anarquistas presentes a imaginarem que Mário Ferreira tivesse "virado a casaca" - ele disse, serenamente: "Terminada a correção da tese do meu adversário, passo agora para a refutação".
Ora, quando o referido filósofo lia alguma obra ou assistia a alguma conferência, procurava sempre fazer isso com boa vontade, querendo, com sinceridade, compreender o que estava sendo apresentado a ele e, por essa razão mesmo, podia, inclusive, corrigir com naturalidade as ideias e opiniões, as crenças e crendices que destoavam da sua palheta filosófica. Seu olhar sobre as múltiplas faces da realidade era mais amplo porque ele nunca teve medo de conhecê-las com honestidade.
Infelizmente, no mundo contemporâneo, que se ufana de sua hiperconectividade e de outras pataquadas modernosas, as pessoas, de um modo geral - e nós, muitas vezes, de um jeitinho bem particular -, somos incapazes disso. Na real, quando alguém ousa querer apresentar um ponto de vista que destoa do nosso estrabismo ideológico, nós já temos uma opinião pronta e acabada, devidamente deformada, sobre a dita-cuja e, a essa gambiarra epistemológica que não vale um vintém furado, damos o nome pomposo de ?nossa opinião crítica? que, na realidade, não é nossa, está a léguas de distância de ser uma opinião e, por isso mesmo, não é digna de uma crítica- diferente de nós, que deveríamos nos dignar a fazer uma honesta autocrítica.
Professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de "O SEPULCRO CAIADO", entre outros livros.
